CALDO DE TIPOS

...poesia, política, literatura, religião, cinema, teatro, música, futebol, música, teatro, cinema, religião, literatura, política, poesia...

20.6.09

Sr. F. ou HAY QUE ENDURECER

Fugindo um pouco do meu cotidiano, vou apresentar, hoje, uma poesia que fiz em homenagem a um amigo. Um amigo que não conheço pessoalmente, apesar de tê-lo tido muito perto, pois morou aqui, nesta aldeia, a que ele, tão bem denominou, de Cratera Urbana. Nos conhecemos virtualmente e mesmo assim pouco, mas este pouco é suficiente para a admiração que tenho por ele. Fagner estudou aqui, na Universidade, se formou e, ao contrário de tantos como nós, que buscamos transformar o mundo no conforto da urbe, que, radicalmente defendemos nossas idéias em blogs ou mesas de bar, foi à luta, literalmente. Ligado a esquerda e a vontade pessoal de fazer parte de um mundo melhor, ele não relutou, deixou, aqui, uma carreira, certamente brilhante, dado ao seu perfil, e foi. Foi para o norte, para a Amazônia, para o Pará, agir e lutar pela tão sonhada Reforma Agrária, pelo desenvolvimento sustentável, pela ecologia, pela mata, pelo peão, pelo sem-terra, por nós e o nosso mundo melhor! Sr. F, como o tratava e como assinava o Blog Cratera Urbana, tem hoje, o Blog Cartas do Front norte, entendo seu pouco postar, apesar de egoisticamente, esperar o dia em que ele passe a nos mandar estas cartas diariamente.
Existe em nossos corações
além do vermelho das bandeiras
a esperança, que naturalmente
o mundo vá se transformando.
Lutamos por isso
com as armas que temos
a par disso
com a mão solenemente posta sobre o peito
nos orgulhamos
de fazermos
o máximo que nos é possível
Mas a saudade
Que me açoita
da cerveja que não sorvi
com o amigo que não conheci
me traz a lágrima ao olho
de constatar
que é pouco o meu obrar!
Trabalho na superfície
enxergo até onde meu olho míope alcança,
com a claridade do dia!
Nos tempos de hoje
é o que se pode fazer
dizemos, num arremedo de culpa
e triste resignação.
Mas nos tempos de hoje,
como nos tempos de outrora
a bruta e fria realidade
nos bate na cara e mostra
que o sal que vinga a terra
é fruto de outra estirpe!
É laborado por homens
que não ficam na superfície
que enxergam além
do que a claridade do dia
e o estofado de nossas poltronas
permitem!
Neste enxergar, vão em frente
com a peleja ao lado
irmã.
Riem, choram, sofrem
bebem, brigam, amam
assim como todos nós
mas são gigantes!
O norte que vislumbramos
foi por eles desenhado!
Há que saudade eu tenho
Da cerveja que não bebi,
Junto a ti,
que acima do cotidiano,
de Justiças ou injustiças,
piadinhas e abjetos sorrisos
nas ante salas jurídicas
foi construir o norte,
o seu norte!
Foi bacharel,
ser doutor na Floresta!
companheiro!
(postagem 234 – ouvindo Violeta Parra – bebendo chimarrão)

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8.6.09

PAN

Ontem o último passou

deixou mensagem de esperança

rezou

e foi embora num challenger 605

o vazio do nada.

Tudo continuou igual

miséria, destruição e morte

terra arrasada

depois

passaram seus seguidores

deixaram panfletos

pediram o dízimo

aí mesmo

que não sobrou

pedra sobre pedra

o vazio do nada.

Sentei sob o alpendre da casa

que tinha sido minha

e antes de meu pai

e mais para trás

do avô, bisavô

chovia

tanto fora quanto dentro

depois que os seguidores se foram

os bajuladores os acompanharam

restou, então,

o vazio do nada.

Minha imaginação

Imaginou, então, uma estrada

assoviei antiga canção de trabalho

na verdade um triste blues

fui caminhando

em meio a edifícios modernos

e o cheiro nauseabundo da ausência,

o vazio do nada.

Um homem levantou uma bandeira!

Será que

humanos

sempre constroem deuses?

Peguei um fio de capim

coloquei na boca

sem apetite

mordisquei.

Voltei

fui fazer um café

e assistir James Dean

permanentemente jovem.

Com as costas da mão

sequei uma lágrima em seu rosto

na velha TV azulada.

(postagem 233 – ouvindo Sex Pistols – bebendo Chanel nº 5)

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30.5.09

TUA BOCA TINGIU A MINHA

Antes do sol

te

espelhar em ouro

visitei,

eu,

tua alegria

vesti teu sorriso

brinquei de abraços

com teus braços.

Estremeci por segundos

antes da minha

tocar a tua.

Bocas.

Pasmo,

senti teus seios

tornarem tênues

minhas pesadas mãos.

Deitei sobre teu corpo

meu amor

e meu passado

deitei inteiro

sem fantasias de realidade.

Senti o gosto

a forma

o toque delicado

que antecedeu

a tempestade

e

do furacão

acordei menino

seguro pela tua mão

e protegido.

Derramei, então

esperanças pelo chão

de madeira antiga,

adormeci homem

acordei criança.

Sinto que se passaram dias,

penso em fazer um chá,

mas não quero

acordar-nos!

Acho que está chovendo,

acho...

(Postagem 232 – ouvindo Nina Simone “Mr. Bojangles”- bebendo vinho verde “Alvarinho” “Quinta de Alderiz”)

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26.5.09

TEMPESTADE INTERIOR

Lavrar o chão virgem
revolvendo
o até então intocado
solo
arado
homem e rês
semoventes
mesclados em barro
ao sol
terra vermelha
lâmina fina de grama
verde grama
misturando-se
qual sangue e carne
no empenho divino
de transmutados
formarem
nova paisagem
mão forte
roçando
a alva pele
calos
rabiscando mapas
ao traçar carinho
poema
de formas e movimentos
revolvendo
o desejo
o pecado
a tez branca
embaralhando
amor, desejo
e saliva
sêmen espargido
no grito gutural da volúpia
como semente espalhada
sobre a terra
ainda nua
e
revolta

taciturno
um raio risca
o opaco cobalto
sem nuvens
talvez existam poemas
que não despertem
as adormecidas lágrimas
da paixão
talvez...
(postagem 231 – ouvindo O que será (à flor da pele) - Chico Buarque – bebendo Moet Chandon)

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22.5.09

BLACK TIE

Nascem ao sol
do meio dia
com destino traçado
- trabalho -
dizem os benfeitores
senhores da sociedade
mas
nunca
a outra metade
das meias palavras
explorado
sugado
oprimido
sujo
escuro
apenas carvão
mato queimado
mata devastada
infância aniquilada
menino carvoeiro
sem tempo para escolas
para orações
e deuses
esquecidos
escravos da lenha preta
escravos iguais ao pai
escravo
que foi como o avô
que por sua vez
foi escravo de outro
e outro e mais outro
soberano do bem
silentes
fizeram-lhes fortuna
aos quais
nunca
de forma alguma
ousaram levantar os olhos
muito menos a voz
não são gente
se incorporaram
outra espécie
três, quatro, cinco
com oito ou dez
já são velhos
os olhos
grandes olhos de meninos
são opacos
não brilham
comem ratos do mato
bebem água podre
das valas
não sorriem
por que será quê,
crianças,
não sorriem?
Em Brasília
dezenove horas!
(postagem 230 – ouvindo Luis Cília “Pobre Martinho” – bebendo cicuta)

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19.5.09

FEZ OITO ANOS DE IDADE

Vai,
cria teu caminho,
com tuas próprias passadas
vá, João,
filho de Paulo!
O mundo te espera!
Não se fixe no tempo,
no ano,
nos estetas
e suas verdades,
nuas, cruas e pétreas!
Isso a vida fará,
a cada pegada deixada,
os guardiões, de plantão,
cobrarão normas, leis e horários!
Etiquetas diversas
e falsos salamaleques.
Faça teu tempo
organize os horários
os brinquedos,
os livros e os amuletos,
depois,
por pura graça,
mude tudo novamente,
o inverso do reverso.
E abra esse teu sorriso,
magicamente lindo e largo.
Deixe os adultos atônitos
com tuas imaginárias histórias,
com tuas corridas reais
com teus heróis miniaturas
com tua crença firme,
num mundo sem desiguais...
se empanturre
de filmes,
de sonhos, balões e jogos
on line
off line!
Roube a lua
e displicentemente
a distribua
em pedaços, iluminados,
entre os que te amam
ou te odeiam.
Deite teus caracóis
negros
ao sol
do meio dia,
e quando,
atrasado saíres,
voe
qual passarinho desajeitado,
e,
volte
para pegar a mochila,
para buscar o caderno,
o brinquedo,
o beijo...
Sorria
para a tua professora,
converse, sobre o universo,
números, letras
e livros!
Volte...
Volte as seis,
ainda com energia
suficiente
para correr a rua inteira!
E por fim adormecer,
no alvo sofá da sala,
em meus braços
anjo sem asas,
infante, somente...
(postagem 229 – ouvindo Aquarela – Toquinho – bebendo chocolate quente)

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12.5.09

RUFIÃO

Madrugada,
duas horas,
do jornal de ontem
restou, latejando,
somente uma frase,
uma curta citação,
sobre o suicida
ser aquele que vai,
(resolve ir)
antes de findar a festa !
Meu apartamento,
(morada, que me aparta da urbe)
décimo quarto andar,
quarenta metros quadrados,
de área privativa,
tem a janela voltada
para a rua das putas,
das putas noturnas.
(de dia o comércio é outro)
Abro a janela
com vontade de urrar !
Que me aborreci,
de morar só
de esperar
amor,
emprego,
dinheiro e
férias,
“Vacaciones en Acapulco”!
Calma!
Não gritei,
não sou demente.
Fechei a vidraça,
abri devagar a porta
bem devagar,
roupão surrado,
pantufas,
com a flâmula
escarlate
do meu time
de futebol,
nos pés.
Desci em silêncio,
com sacos azuis,
cheios de restos
de mim,
depositados,
displicentemente
no container verde,
da companhia de lixo!
Uma mulher,
bustier, mini saia e botas,
sorriu.
Subi
arrastando minhas correntes,
adormeci,
nú,
com o sorriso da puta,
latejando!
(postagem 228 – ouvindo o burburinho da noite – bebendo água com açucar)

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